Suporte Básico de Vida: a importância da rápida desfibrilação na parada cardiorrespiratória em ambiente extra hospitalar

A parada cardiorrespiratória – PCR é um problema de saúde pública de relevância mundial. Nos Estados Unidos, por exemplo, dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que cerca de 330 mil pessoas morrem por ano vítimas de PCR, sejam elas ocorridas dentro do hospital (intra hospitalar), quanto fora dele (extra hospitalar). No Brasil, estima-se que 212 mil pessoas morrem por ano, sendo que as vítimas acometidas por PCR fora do hospital geralmente não recebem as intervenções necessárias ou adequadas (PÍSPICO et al. 2013).

O atendimento a uma parada cardiorrespiratória está dividido, basicamente, em duas etapas: Suporte Básico de Vida – SBV (fase inicial), onde manobras básicas de RCP – Reanimação Cardiopulmonar, são aplicadas por qualquer pessoa, que podem ter o mínimo de treinamento ou não, podendo ser orientada por telefone por um Técnico Auxiliar de Regulação Médica, que trabalha em uma central telefônica do SAMU – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, até a chegada de uma viatura para dar continuidade ao atendimento, e o Suporte Avançado à Vida – SAV, onde uma equipe composta por médico e enfermeiro executa procedimentos invasivos, como intubação orotraqueal, aplicação de drogas vasoativas e outras manobras (PÍSPICO et al. 2013).

O cérebro tem uma baixíssima tolerância à isquemia, logo, aplicar precocemente medidas de reanimação cardiopulmonar efetivas aumenta as chances de sobrevivência da vítima. (GEBELEIN, 2013).

O funcionamento do coração humano

O coração humano é um músculo oco com quatro câmaras (dois átrios e dois ventrículos), cuja função é bombear o sangue, rico em oxigênio e nutrientes, por todo corpo. É, portanto, o componente central do sistema circulatório (ZORZI & STARLING, 2017).

Os dois movimentos envolvidos nesta tarefa, conhecidos por sístole (contração) e diástole (relaxamento), só acontecem por conta de dois fatores: a geração ordenada de impulsos elétricos a partir do nó sinusal e o aporte adequado de oxigênio no miocárdio (musculatura do coração), que recebe esta corrente elétrica e proporciona, assim, as contrações necessárias, que, para um adulto saudável, estão numa faixa de 60 a 90 batimentos por minuto (ZORZI & STARLING, 2017).

Quando há a geração de impulsos elétricos anormais (arritmia), o coração costuma tremular e, com isso, há a interrupção da circulação sanguínea, levando a um quadro de isquemia em todos os órgãos. (GUIMARÃES et al. 2015)

A PCR apresenta três ritmos: FV – fibrilação ventricular, TVSP – taquicardia ventricular sem pulso, sendo estas arritmias originadas a partir de desordens elétricas; e a AESP – Atividade Elétrica sem Pulso, sendo a causa desta arritmia o aporte inadequado de oxigênio no miocárdio, podendo vir de traumas (como tamponamento cardíaco, tensão no pneumotórax ou hipovolêmia), falhas de oxigenação do sangue (como hipóxia, muito comum em bebês/crianças vítimas de engasgo), ou de má perfusão celular, como no infarto, onde um coágulo se forma na artéria coronária (vaso que leva sangue para o miocárdio) e impede a chegada de oxigênio ao músculo cardíaco, fazendo também que o coração perca a capacidade de bombear sangue (PAZIN-FILHO et al. 2003).

Em vítimas adultas, cerca de 95% das PCR inicia-se por problemas elétricos. Essas desordens (FV ou TVSP) costumam durar cerca de quatro minutos. Logo, detectar o ritmo que causou a parada cardíaca bem como aplicar eficazes medidas de reanimação cardiopulmonar nestes primeiros minutos são determinantes para a sobrevida da vítima. (PÍSPICO et al. 2013)

As manobras de RCP compreendem um conjunto de procedimentos que visa restabelecer o ritmo cardíaco, mantendo, no período em que são executadas, a circulação do sangue de maneira artificial, irrigando principalmente o cérebro. (NSC, 2007)

Os procedimentos listados nas recomendações para o atendimento a uma parada cardiorrespiratória são elaborados por diversas instituições que se reúnem duas vezes ao ano para discutir, revisar, e, entre outros objetivos, disseminar informações para a educação em ressuscitação cardiopulmonar. Tais instituições fazem parte da ILCOR, sigla em inglês para Aliança Internacional dos Comitês de Ressuscitação (TIMERMAN et al. 2006).

No Brasil, seguimos as recomendações da American Heart Association – AHA. Desde 1991, a AHA adota o padrão de “corrente da sobrevivência” para descrever as etapas evolvidas no atendimento de parada cardiorrespiratória, sendo composta por cinco elos interligados entre si (PÍSPICO et al. 2013).

Para a parada cardiorrespiratória extra hospitalar (PCREH), o primeiro item corresponde ao rápido reconhecimento da PCR e acionamento do serviço médico. Já o segundo elo corresponde à RCP em si, onde devem ser aplicadas compressões torácicas eficazes no tórax da vítima. O terceiro elo, o mais importante para reverter a parada cardíaca no adulto, é a rápida desfibrilação com uso do DEA – Desfibrilador Externo Automático. O quarto elo corresponde ao Suporte Avançado de Vida, onde técnicas invasivas são aplicadas para rápida estabilização e transporte da vítima a um centro de hemodinâmica, preferencialmente. Por fim, a última etapa, chamada de cuidados pós PCR, está sob a responsabilidade da equipe multidisciplinar no hospital (GUIMARÃES et al. 2015).

A identificação de uma PCR deve ser feita com extrema rapidez e compreende: checagem da responsividade, respiração e pulso. A responsividade é verificada chamando a vítima em tom de voz alto e tocando-a buscando por qualquer sinal de consciência. Caso não ocorra reação a estes dois estímulos, pode-se considerar que a vítima está em situação potencialmente letal, devendo-se neste momento chamar por socorro através do número 192 (serviço de ambulância do município/região) ou 193 (Corpo de Bombeiros). Na seqüência, procede-se com a checagem da respiração, onde a expansão torácica é observada, bem como sentir se há eliminação de ar aproximando-se o rosto da face da vítima. Caso ela também não respire, é confirmada a PCR com checagem do pulso e, em caso negativo, procede-se com a RCP, já que a PCR está confirmada, pois a vítima não responde, não respira e não tem pulso (PAZIN-FILHO et al. 2003).

A técnica ideal para aplicação das compressões cardíacas (segundo elo da corrente da sobrevivência) compreende compressões torácicas e insuflações. Para tal, posicione uma mão sobre a outra com a região hipotênar no osso esterno, na linha intermamilar. Comprima por trinta vezes e, na sequência, abra as vias aéreas e faça duas insuflações, utilizando-se para tal alguma barreira de proteção, com máscara descartável para RCP ou pocketmask (NSC, 2007).

Caso o socorrista não se sinta seguro para aplicar as insuflações ou não tenha equipamentos de proteção, pode realizar somente as compressões cardíacas, numa frequência de 120 compressões por minuto (GUIMARÃES et al. 2015)

A terceira e última etapa aplicada por leigos no suporte básico de vida está na aplicação do desfibrilador externo automático. O DEA é um equipamento que analisa o ritmo cardíaco e reconhece os traçados de fibrilação ventricular e taquicardia ventricular por meio de eletrodos fixados no tórax da vítima. Por meio destas também é aplicado o choque, quando indicado. O aparelho carrega a potência programada e emite um sinal onde o socorrista deve, neste momento, certificar-se que ninguém esta tocando a vítima e então apertar o botão de choque para que ele seja efetivamente aplicado, contribuindo para que o ritmo cardíaco seja restabelecido. (NSC, 2007)

Não há estudos que comprovem a eficácia do uso de fármacos para reverter PCR originada por FV ou TVSP. A desfibrilação externa automática se mostra uma manobra extremamente importante ainda no âmbito do suporte básico de vida, já que sua eficácia aumenta conforme ocorre nos primeiros minutos de RCP, onde observou-se uma taxa de sobrevivência de 30 %. Quanto mais tardiamente aplicada, menores as chances de retorno da circulação espontânea. (PAZIN-FILHO et al. 2003).

É importante ressaltar que mesmo que as compressões torácicas e insuflações estejam sendo corretamente aplicadas, a desfibrilação deve ser aplicada imediatamente, pois a cada minuto que este equipamento deixa de ser utilizado, as chances de reversão são reduzidas em 10%. Logo, a aplicação do desfibrilador externo automático em PCREH é fundamental (NSC, 2007)

A correta utilização do DEA inclui verificar se o tórax da vítima está seco; garantir que pelos em excesso sejam retirados (podendo-se utilizar para tal um aparelho descartável de barbear); e que vítimas que utilizam marca passo tenham as pás fixadas 2 cm abaixo do mesmo (PÍSPICO et al. 2013).

Ainda que seja um aparelho de fácil utilização, é imprescindível que a população em geral seja treinada para diagnosticar uma PCR, acionar o serviço de emergência adequado e aplicar as medidas iniciais de RCP, que envolvem compressões torácicas de alta qualidade e a rápida desfibrilação. O leigo treinado é peça chave para o sucesso na reversão do quadro, sendo componente essencial na cadeia de procedimentos envolvido na etapa de suporte básico de vida.

Faz-se necessário que pontos de acesso público à desfibrilação sejam criados pelas cidades, assim como preconiza o protocolo da AHA, visto que até mesmo cidades pequenas ou distantes dos grandes centros já apresentam um trânsito caótico, diversos chamados para os serviços de emergência e baixo número de ambulâncias disponíveis devido à retenção de macas nos hospitais, diminuindo drasticamente o tempo resposta, o que prejudica as chances de retorno da circulação espontânea.

Fica claro, portanto, que a desfibrilação é passo fundamental no atendimento às emergências cardiovasculares e que devemos cobrar cada vez mais que o DEA esteja disponível para uso nos mais variados tipos de empreendimentos e que a capacitação seja constante.

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Sob orientação de Alexandre Dias Zucoloto, docente Universidade Anhanguera – UNIAN

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REFERÊNCIAS

GEBELEIN, N. M., Choque. In: McSWAIN, N. E., Atendimento Pré Hospitalar ao Traumatizado, v. 1, ed. 7, Elsevier: Rio de Janeiro, p. 180-216, 2011.

GUIMARÃES, H. P., POLASTRI, T. F., CALDEIRA, P., BASRBISAN, J., Suporte Básico de Vida. In: GUIMARÃES, H. P., POLASTRI, T. F., CALDEIRA, P., BASRBISAN, J., American Heart Association, 2015.

NATIONAL SAFETY COUNCIL. NSC. Suporte Básico de Vida 2: Emergências Cardíacas e RCP. In: Suporte Básico de Vida para Profissionais da saúde e de resgate. Randal Fonseca: Bragança Paulista, p 36-47, 2007.

PAZIN-FILHO, A., SANTOS, J. C., CASTRO, R. B. P, BUENO, C. D. F., SCHIMIDT, A. Parada Cardiorrespiratória (PCR). Medicina, Ribeirão Preto, v. 36, n. 3, p. 163-178, 2003.

PÍSPICO, A., FERIANI, L. M. K., VANZETTO, R. DA FONSECA, S. C. Ressuscitação Cardiopulmonar: Suporte Básico e Avançado de Vida. In: FERIANI, L. M. K., RIBEIRA, J. M., DAMASCENO, M. C. T., ROZOLEN JR, P. J., CARDOSO, R. G., Pré Hospitalar/GRAU (Grupo de Resgate e Atenção às Urgências e Emergências), v. 1, ed. 1, Manole: Barueri, p. 104-138, 2013.

TIMERMAN, S., GONZALEZ, M. M. C., MESQUITA, E. T., MARQUES, F. R. B., RAMIRES, J. A. F., QUILICI, A. P., TIMERMAN, A. Aliança Internacional dos Comitês de Ressuscitação (ILCOR). Papel nas novas diretrizes de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados cardiovasculares de emergência 2005-2010. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 87, n. 5, p e201-e208, 2006.

ZORZI, R., STARLING, I. G. Sistema Circulatório. In: ZORZI, R., STARLING, I. G., Corpo Humano, órgãos, sistemas e funcionamento. v. 1, ed. 2, Senac: São Paulo, p. 92-114, 2017.

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